é como se sorrisses sem sorrires e brilhassem teus dentes reclusos à escuridão da tua boa é como se olhasses a escuridão do mundo e buscasses com teu olhar de anzol fisgar a manhã clara que se esconde no abissal egoísmo humano
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h07
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pelo voto individual do poeta elegeu-se a dona da inspiração para um mandato perpétuo pouco importa se a dona se importa com a eleição se comparecerá ao ato de posse se corresponderá à poesia latente que flui do coração do poeta ainda que não queira que renuncie ao mandato que fuja ao decoro da função permanecerá para sempre no cargo pela vontade autoritária do poeta
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h03
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eu sei que a vida não é um poema que eu possa manipulá-lo ajustando as palavras ao texto servindo-me da liberdade poética para criar neologismos ou mesmo transgredir as regras impostas pelos gramáticos eu sei muito bem que a vida é assim mesmo como dizem os conformistas mas sei também que não é bem assim e eu não preciso me corromper diante das propostas de enriquecimento fácil ou me enfiar num tubo de pasta dental ocultando-me do burburinho das ruas apenas para fugir de uma vontade louca que não explico nem quero explicar que me compele a buscar na noite um abraço um sussurro um hálito um beijo...
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h01
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os degraus
os degraus da longa escada
os degraus da longa escada para alcançar
os degraus da longa escada para alcançar um olhar
o olhar
o negro olhar
o negro olhar de montanha
o negro olhar de montanha ao longe
eu só
eu só e tanta gente
eu só e tanta gente ao redor
eu só e tanta gente ao redor em tumulto
os olhares
os olhares se encontram
os olhares se encontram distantes
os olhares se encontram distantes e sorriem
o jantar
o jantar em fila indiana
o jantar em fila indiana e a fome
o jantar em fila indiana e a fome a nos igualar
Escrito por Ronaldo Giusti às 12h41
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minha tarde fria
quem há de aquecê-la?
tua alegria em brasa
escorre nos vãos dos dedos
das horas que passam em vão
flor e fogo se somam
ao desejo de aquecê-la
e assim me perco
e se me encontro
é na noite insone
da brisa fria nas janelas
e endredons surrados
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h12
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teu ódio de classe
se esconde
no cotidiano da tua luta
e não resiste ao perdão
que extrais diariamente
da vida cristã
perdoar a exploração
em nome do amor cristão
perdoar e condenar-se
à escravidão eterna
eis o teu destino operário
Escrito por Ronaldo Giusti às 12h37
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rua são Jorge 36
O olhar a voz a tez
escondo o medo
de tal modo atroz
aguardo silente
a tez o olhar a voz
dono de mim
proponho me dar
paciente espero
a voz a tez o olhar
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h47
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habitas o mundo
em suas cores mórbidas:
buzinas de automóveis
gritos de manicômio
comícios passeatas
tornam a vida menos chata
uma mulher
alguém diz que deves possuí-la
até que flácido
o falo não mais consiga
atear fogo em seu corpo
a que passa
sorridente e ávida
será ela o teu
antônimo complemento?
mas não respondes
na reclusão distante das tuas mãos em chamas
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h33
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a plebe ignara
povinho servil
não sabe de nada
não olha nem diz
ó pobre gentalha
de pequeno cérebro
serve bem ao amo
e de si esquece
moderno escravo
assalariado
se nega à revolta
mantém-se calado
não olha pra frente
nem vê seu papel
ó inerte vida
de tão pouco mel
esconde a dor
ó medo feroz
não sabe: é coveiro do seu próprio algoz
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h32
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renuncia à insônia
e abraça o sonho
o medo espanta
e espalha o riso
não espero coerência
de ti só delírio
se pelo amor o pranto te transforma em brilh
Escrito por Ronaldo Giusti às 11h31
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amor aprendido
do noturno pranto
noites insones
noturnas lições
análises erros
acertos em xeque
o velho caderno
e os vai-e-vens
de uma repetência
que já não sobrevive
amor apreendido
das lições de amor
jamais decoradas
ou esquecidas
amor aprendido
que se enraíza
e se repete
a cada dia
sem se repetir em confissões
Escrito por Ronaldo Giusti às 17h42
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teu nome
eu o escreverei
como um poema
no centro do papel:
eva evie
ave
Escrito por Ronaldo Giusti às 23h13
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toada de boi no meu quintal
tambor-de-mina no meu quintal
eu (menino) e minha rede
e o quintal sem cercas
sob o balanço místico dos batuques
lorentino jorge curador
as noites encantadas de junho
procissão de São Jorge
sua bênção dindinha!
e o desafinado cântico das caixeiras
em direção à rua do poço
ao fim da festa
balas escorrendo do mastro
e o bom vinho que pretendia beber
sob censura do velho brincante
enquanto o couro esquentava na fogueira
(pandeirões e zabumbas)
o boi agonizava no ronco grave da cuíca
sob o sustenido das matracas
Escrito por Ronaldo Giusti às 16h08
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o poema sofre
a explosão da sintaxe
o sangue das palavras
as sílabas em dor
o poema subalterno
a sintaxe vive
as palavras sangram
na dor das sílabas
o poema é o seu negar
nega o poema o seu existir
que é a sua inutilidade
Escrito por Ronaldo Giusti às 16h02
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minha mãe
lá fora arde o sol de agosto
na pele suja
do asfalto em brasa
nos escondemos
em nossas casas:
sob o teto de amianto
arde em nós
o medo do ocaso
arde em nós o temor
do ácido mal e o tédio
que nos consome
a pele a carne os anos
Escrito por Ronaldo Giusti às 16h00
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